terça-feira, 15 de março de 2011

RITA, A RAINHA DO ROCK (MATÉRIA DA REVISTA VEJA EM 1983)


QUEM: .......... Rita Lee
O QUE: .......... Rita, a rainha do rock
QUANDO: ..... numero 766, 11/05/1983
ONDE: ........... Revista Veja
EDITORA: ..... Abril

Aclamação da rainha

Na maior excursão já realizada por um artista no país, Rita Lee comemora com meio milhão de pessoas a vitória de seu rock e sua alegria

Gol de Rita: E depois do gol a comemoração. Como um time campeão que dá uma volta olímpica no estádio para juntar sua alegria ao delírio da torcida, ela decidiu celebrar a vitória de seu rock cantando e dançando com o público que a transformou em rainha da música brasilcira. A frente dc uma caravana de 56 pessoas e seis caminhões, e investida do espírito de um saltimbanco, Rita, aos 35 anos, passou os últimos três meses mostrando o melhor show de sua carreira para 500 000 pessoas de todo o país, em 23 cidades e 37 apresentações. No próximo fim de semana, quando aportar no ginásio do Maracanazinho, no Rio de Janeiro, para um espetáculo no sábado e outro no domingo, encerrará sua volta olímpica a mais alegre, cara e bem-sucedida tume já realizada por um músico brasileiro.
 
Nenhum artista no país tocou para um público tão grande em tão pouco tempo. Trata-se de uma proeza. mais uma da inesgotável roqueira - capaz de, a cada ano, arrebatar o país com suas musicas de romance ou molecagem, seu estilo vivo e irreverente. Na verdade, se se computar todos os artistas nacionais que aderiram, nestes últimos anos, à moda das grandeN excursões nacionais, Ney Mato-grosso continua a ser o recordista em número de shows numa só turnê: apresentou-se 110 vezes entre junho dc 1981 e março de 1982, também para 500 mil pessoas. E Simone detém ainda o recorde de público no Ginásio do Ibirapuera, em São Paulo, quando esgotou sua lotação de 15 000 lugares por nove vezes em março do ano passado.

Ao contrário desses artistas, porém Rita não somou em sua turnê temporadas em locais de porte médio, como o Canecão carioca e o Anhembi. em São Paulo. Levou seu espetáculo apenas aos estádios de Ititebol e grandes ginásios,numa consagração sem precedentes. Em Belo Horizonte, por exemplo, nada menos de 28 000 pessoas disputaram um dos 26 000 lugares do maior ginásio do país, o Mineirinho. E, em Brasília, a polícia e a grade de ferro colocada à frente do palco não puderam conter o entusiasmo das 18 500 pessoas que lotavam o Estádio Edson Arantes do Nascimento e que invadiram o palco levando consigo o que estivesse pela frente. Foi nisso que Rita inovou: com sua turnê, inaugurou a era em que os artistas se apresentam apenas para grandes platéias, em ginásios lotados.
 
Trata-se, naturalmente, de uma tarefa para quem pode - não para quem quer. Rita pode. Outro que pode, sem dúvida, é Roberto Carlos - e a partir daí fica difícil apostar em outro astro da música brasileira que seja capaz de lotar estádios e ginásios em lugares tão diferentes como Vitória e Teresina, Goiânia e Aracaju, cidades incluídas na excursão da roqueira. Roberto Carlos tanto pode que vai seguir os passos de Rita. A partir do próximo dia 17, dois dias apenas depois do encerramento da turnê de Rita. ele estará inaugurando a sua própria. em Brasília, com a mesma ambição de apresentar-se em amplos espaços e uma estrutura ainda mais impressionante, que inclui um avião para transportar o cantor e sua comitiva. Também o "rei" estará entrando na era das grandes excursões para grandes públicos.
 
PULO DO GATO - Tenho certeza que o Brasil ficou um pouco mais alegre, como depois de uma vitória do Corinthians ou do Flamengo", exultava Rita, na semana passada, refletindo sobre o balanço de sua aventura. Para Rita, o saldo foi ainda maior: os três meses de turnê representaram uma fase fértil em sua criação, em que ela preencheu um caderno com quarenta novas letras de músicas. Assim, já se pode hoje ter uma idéia de como Rita irá alegrar o país na próxima temporada. Suas novas travessuras incluem uma canção caipira, em que diz, com sotaque carregado: Entre russo e americano/Prefiro grego e trojano/Pelo menos eles num final Que nóis é boliviano. Para devolver a homenagem de Caetano Veloso na cançao Sampa compôs Quarentão. goStosão/Magrela. sempre com ehi/Meu Dorian Grey /Da sua fonte eu beberei.
 
Desde que arrebatou o pais, em 1979, com a canção Mania de Você, Rita influenciou o perfil da cultura brasileira com aquilo que ela mais facilmente absorve e festeja: a alegria. Nesses quatro anos que se seguiram, o público consumiu 3,2 milhões de cópias de seus LPs. Apenas de seu último disco, Rita vendeu 600 000 exemplares - cifra que a coloca atrás somente de Roberto Carlos entre os grandes vendedores de disco do país. Acima dos números, porém, Rita, com o avanço contínuo e a consistência demonstrados nos últimos anos, dá uma resposta definitiva aos que a classificavam como simples modismo. Muitos de seus ouvintes, e mesmo os que torcem o nariz para ela, agora percebem que Rita deixou de ser apenas a boa companheira de brincadeiras. Rita já é um nome importante na cultura brasileira. E essa posição ela conquistou, não só com a simples alegria, mas com um trabalho sério e original. Rita inovou ao abrasileirar o rock. Ela conferiu, ao ritmo importado, uma matreirice nas letras, um sentido de paródia e de deboche que tem raízes fundas no gosto popular brasileiro. O que Rita faz hoje é uma espécie de substitutivo das antigas marchinhas de Carnaval. Nesse sentido, ela é muito mais brasileira do que muitos cantores e compositores que, apesar de se dizer ligados às raízes da música do país ou a seus temas tradicionais, ultimamente caíram na mesmice dos sambas-canções abolerados.
 
Para dar seu pulo do gato, nestes últimos anos, foi fundamental, para Rita, uma associação que a fez crescer e multiplicar seus talentos: o casamento, em 1976, na vida pessoal como profissional, com Roberto de Carvalho. Desde esse ano eles se tornaram, além de marido e mulher, parceiros nas canções. E desde o ano passado a associação se solidificou a ponto de os dois, agora se apresentarem, oficialmente, como uma dupla. "O Roberto é responsável por 50% de cada canção e o nosso trabalho é todo feito a dois, não havia por que continuar só com o meu nome na frente", ela éxplica. Carioca, 30 anos, filho de pai engenheiro e mãe pianista, e neto do general Zenóbio da Costa - último ministro da Guerra de Getúlio Vargas , Roberto Zenóbio Affonso de Carvalho é realmente fundamental para o sucesso da dupla. Antiga criança prodígio ao piano antes que, para desespero de seus professores do Conservatório Brasileiro de Música, onde adquiriu formação clássica, se apaixonasse pelos Beatles e empunhasse uma guitarra, Roberto é hoje quem faz as músicas da dupla, enquanto Rita faz as letras. Foi em 1976, quando acompanhava Ney Matogrosso num show em São Paulo, que ele conheceu Rita. O casamento veio logo em seguida - e hoje, além de guitarrista, Compositor e arranjador, Roberto revela uma inesperada vocação de empresário, ao controlar, pessoalmente, os negócios do casal.
 
MOEDAS DE CHOCOLATE - Em nível de realização pessoal, a turnê representou para Rita e Roberto a realização de um antigo sonho. "Nós trabalhamos muito e produzimos muito, precisávamos dar vazão a essas idéias", explica Rita. "Do ponto de vista empresarial, nem foi um bom negócio, e sabíamos que não seria", diz, por sua vez, Roberto. "Vamos lucrar cerca de 80 milhões de cruzeiros e, se fizéssemos shows de produção mais barata e em maior número, poderíamos lucrar 300. Nosso objetivo não era o lucro exagerado: era fazer a turnê bem-feita." Conseguiram. Do momento em que Rita surge no chão do palco, saída de um mirabolante elevador, cantando Saúde, até o final apoteótico, quando interpreta Lança-Perfume com 10000 balões de gás descendo sobre o público, fica evidente que poucos shows de música até hoje combinaram de forma tão perfeita a técnica à emoção.

Rita ocupa o imenso palco durante todo o tempo, corre de um lado para o outro, mexe com o público, beija as crianças, injeta na platéia a expectativa de uma nova surpresa a cada minuto. Roberto funciona como ligação entre ela e os músicos, faz malabarismos com a guitarra, e rege o grupo como um excêntrico maestro. O resultado é um espetáculo completo, moderno - e não apenas um recital de música. Se Gal Costa impressiona em cena pela apuradíssima técnica vocal e Simone pelo carisma como cantora dramática, Rita arrebata a todos numa irresistível euforia. Nesse sentido, a roqueira beneficia-se sobretudo por uma fase de crise da criação na MPB tradicional. Gal Costa sempre será Gal Costa pela sua voz, assim como Elizeth Cardôso sempre é Elizeth e Simone sempre será Simone pelo carisma. Mas todas poderiam crescer se não estivessem limitadas por produções batidas e repertório repetitivo.
 
Fugindo desse padrão, Rita despertou novas paixões durante os três meses de tumê. Ao passar por Vitória, o escritor Rubem Braga, 70 anos, foi assisti-la no Ginásio Dom Bosco, fez fila nos camarins para cumprimentá-la e dedicou-lhe uma extensa crônica no jornal Correio Braziliense, de Brasflia, em que escreve habitualmente. "Como se moveria benk no Moulin-Rouge ao lado de Jane Avril e Valentin-le-Désossé, desenhada a esfregaços de bastonetes de pastel por Degas ou Toulouse-Lautrec", escreveu sobre ela, em tom emocionado, o velho cronista. Além de colecionar paixões porém, Rita também reavivou velhos desafetos. No show de Brasília, na canção Vote em Mim, não se limitou a fazer o discurso habitual (Vote em mim/Não no Delfim/O gordinho sinistro) que a encerra enquanto joga moedas de chocolate para o público. Investiu contra a chefe do Serviço de Censura Federal, Solange Hernandes, chamando-a pelo nome e pedindo a ela para "não atrapalhar a vida dos artistas". Rita referiu-se especificamente à sua canção Cor-de-rosa Choque, tema do programa TV Mulher da Rede Globo, que durante anos teve amputada de sua letra a frase Mulher é bicho esquisito/Todo mês sangra. A roqueira perguntou à censora: "Dona Solange, a senhora não conhece Modess?"
 
O senhor Carvalho, empresário, e seus negócios

No guarda-roupa de Roberto de Carvalho, os coloridos uniformes de show convivem lado a lado com uma coleção de elegantes temos e grava tas. Aparentemente, estes são trajes de pouca utilidade para um agitado astro do rock - mas só aparentemente. Longe dos palcos e dos estádios de gravação, na verdade, Roberto não é apenas o marido e parceiro de Rita Lee: é também um executivo compenetrado e de agenda repleta que comanda dez funcionários entre intrincados mapas, gráficos e extratos de computador.

Ao contrário da maioria dos artistas brasileiros de sucesso, Roberto cuida pessoalmente de todos os negócios da dupla - uma complicada engrenagem que envolve contratos artísticos, cessões de direitos autorais, negociações para a utilizaçao de imagem, vendas de shows e uma infindável série de outros itens que compõem a vida profissional de um artista de sucesso. Em seu quartel-general, a Trampo ProduÇões Artísticas - um conjunto de três salas no alto de um arranha-céu na Avenida Paulista, em São Paulo -, Roberto se envolve em longas discussões com advogados, emptesários óu seus próprios funcionários. Ali quem brilha não é o guitarrista, mas o chefe com fama de severo, atento e incansável. "Acho o mundo dos negócios excitante", diz ele.
 
Como empresário, Roberto de Carvalho e duro e exigente. Com as calças Lee, uma das patrocinadoras do atual show, ele fechou um contrato que, em troca de 100 milhões de cruzeiros, dá direito à em-presa de exibir sua marca em faixas espalhadas durante o espetáculo e em folhetos promocionais. Nem ele nem Rita, porém, usam calças Lee em suas apresentações. "Para usar a calça", diz Roberto, "eu pediria mais 200 milhões."

Esse mesmo sentido de seriedade nos negócios transpareceu quando da renovação do contrato da dupla com sua gravadora, a Som Livre, logo após o estrondoso sucesso do LP Lança Perfume. Roberto envolveu-se em intermináveis semanas de conversações, e ao final tinha arrancado da gravadora uma concessão inédita no país: Rita e Roberto são hoje os únicos artistas nacionais que recebem royalties de 15% sobre cada disco vendido - quando o normal é de 7%, para iniciantes, e :10% para os consagrados. Esse item no contrato foi o que garantiu a permanência do casal na Som Livre, num momento em que outra gravadora - a CBS -acenava com uma oferta milionária.

Roberto de Carvalho não vê incompatibilidade entre suas facetas de músico e de homem de negócios. "Para o profissional, trata-se de dois lados complementares da mesma moeda", afirma. De toda forma, ele é frequentemente obrigado a malabarismos para coordenar as duas funções. Há três meses, por exemplo, tinha uma reunião inadiável com os executivos de sua gravadora no exterior, a EMI America, com sede em Nova York. Tomou um avião para Nova York, fechou contrato e embarcou de volta no mesmo dia, a tempo de retomar os ensaios para a turnê que estava prestes a começar.
 
Em outras ocasiões, Roberto é obrigado a tomar, rapidamente, decisões que deixariam em dúvida qualquer empresário experiente. Foi assim que, há um mês, recusou uma milionária proposta de dois empresários para dividir um show com Julio Iglesias, no estádio do Maracaná. "A soma oferecida era um assombro, mas pensei na hora que a associaçâo de imagens não seria boa nem para nós e nem para Iglesias", avalia ele. Apesar de frustrados em decisões como essa, os empresários com quem Roberto costuma lidar acham mais fácil conversar com ele do que com outros músicos, exatamente por causa de sua intimidade com o mundo dos negócios. E essa a opinião, por exemplo, de João Araújo, presidente da Som Livre. "É sempre penoso lidar com a figura do marido da cantora", argumenta Araújo. "Mas, no caso de Roberto, é fácil: ele exige muito, mas sempre vê o outro lado da mesa."
 
PRATOS DE ESPAGUETE - O triunfo de Rita Lee e Roberto de Carvalho e o início da turnê de Roberto Carlos consagram definitivamente, no Brasil, um tipo de excursão antes apenas empreendida pelos grandes astros do rock americano ou inglês. Mais especificamente, tanto Rita como Roberto Carlos se dizem inspirados na excursão gigante realizada pelos Rolling Stones, em 1981, pelas grandes cidades americanas. Talvez essa seja apenas uma etapa. Talvez seja apenas uma preparação, um esquentamento de motores, para um dia, quem sabe, artistas nacionais da estatura de Rita ou Roberto Carlos igualarem o recorde histórico de Frank Sinatra ao encher o estádio do Maracaná, em janeiro de 1980. Em todo caso, as grandes excursões exigem investimento e muito esforço.
 
São turnês em que o próprio artista carrega uma completa infraestrutura para o palco até os guarda-costas. Para montar o seu espetáculo em grande estilo, Rita Lee e Roberto de Carvalho convocaram o empresário Leonardo Netto, 32 anos, sócio do jornalista Nélson Motta em empreitadas como a discoteca Noites Cariocas, no Rio de Janeiro, e ex-vice-presidente da gravadora WEA. "Nossa idéia foi montar um espetáculo em que nenhum efeito especial tivesse mais impacto que a presença de Rita e Roberto em cena", explica Leonardo. Assim, construiu-se um equipamento sob medida para essas necessidades, coni 30 000 watts de potência sonora, 100 refletores, quatro canhões de luz e um imenso palco munido de duas passarelas. Para que suas guitarras estejam sempre no ponto, sem aborrecer o público com o som da afinação. Roberto mantém um afinador eletronico à sua disposição atrás do palco, manejado por um técnico. Roberto tem também um telefone camuflado no palco, ligado diretamente às mesas de som e luz, com as quais se comunica para dar eventuais instruções.
 
Para montar essa formidável infra-estrutura, Rita e Roberto gastaram 200 milhões de cruzeiros, o maior investimento já feito num show de música no Brasil. Metade dessa verba saiu do próprio bolso do casal, e o restante foi forneci-do pela etiqueta de roupas Lee, que assim ganhou o direito de associar seu nome aos espetáculos. "O patrocínio foi um sucesso para a Lee, as vendas aumentaram à medida em que a caravana de Rita e Roberto avançava", exulta Milton Bernard, gerente de promoções da agência de publicidade MPM, responsável pela negociação da verba.

Para sustentar o pique de ensaios e viagens quase diárias e seus malabarismos em cena, Rita e Roberto desenvolveram uma receita de resistência. Lendo uma entrevista com Mick Jagger, o líder dos Rolling Stones, descobriram que, para estar em sua melhor forma na hora de entrar no palco, ele habituou-se a comer um prato de macarrão três horas antes do início. Adotaram a fórmula e, em todos os shows da turnê, podiam ser vistos pelos camarins empunhando fartos pratos de espaguete. "Os carboidratos da massa e as calorias dão uma sensação estimulante a quem se exercita", explica o médico Carlos Teixeira, 30 anos, contratado para acompanhar Rita e Roberto durante a turnê, com uma inseparável ambulância na porta. Teixeira é ainda encarregado de aplicar uma massagem relaxante no casal meia hora antes da entrada em cena.
 
TÚNEL DO TEMPO - Macarrão, porém, só antes dos shows. No dia-a-dia, Rita e Roberto preferem alimentos leves e naturais, como água-de-coco, mel e uma mistura de cereais que importam dos Estados Unidos. Longe das luzes do palco, Rita e Roberto levam vida de gente comum. Pouco saem, de seu confortável e gigantesco apartamento duplex de 1200 metros quadrados, no bairro de Higienópolis, em São Paulo.Seu dia-a-dia é passado com os filhos Roberto, de 6 anos, João, de 4, e Antônio, de 1 ano e meio -, entre montanhas de jogos eletrônicos, fitas de vídeo a brincadeira predileta da família, que consiste em se andar de luzes apagadas no pequeno elevador que liga os dois andares do apartamento.

O casal não bebe álcool e não consome drogas, ainda que Rita admita já as ter consumido há oito anos. Curiosamente, Rita e Roberto parecem alimentar sua relação na mesma fonte que costuma desandar tantos casamentos: a convivência diária e ininterrripta. Eles moram, trabalham e viajam juntos há sete anos. "A gente só briga quando está compondo: lança chispas, fica violento, mas acaba cedendo a um final feliz", conta Roberto. "Um casal que convive 24 horas por dia, 360 dias por ano, tem que dar asas à imaginação no relacionamento", intervém Rita. "Nós, por exemplo, procuramos fazer amor em todas as partes da casa. Quando as pessoas não variam o cotidiano entre si, buscam variações fora do casamento."
 
A boa parceria de Rita e Roberto em casa refletiu-se num trabalho em que eles fundiram a musicalidade de um com a inspiração do outro, ou na perfeita alquimia entre humor e romantismo que atingiu sua perfeição em Lança-Perfume, de 1980, e continua produzindo frutos. "O Roberto tem o jeito carioca, flui música. Eu sou a paulista objetiva, gaiata e sem swing", resume Rita. "Essa dualidade é muito importante na nossa musica".

Essa perfeita associação entre Rita e Roberto começa a despertar também a atenção do mundo Há dois anos, Roberto recebeu um convite do empresário americano Steven Machat - descobridor de atrações como o grupo Genesis para editar Lança-Perfume em versão americana. Fechou negócio quase por acaso e, seis meses depois, o compacto figurava em 25. lugar nas paradas de sucessos de "música negra" da revista Billboard, a bíblia do mercado fonográfico americano. Entusiasmado, Machat voltou à carga e interme-diou um contrato entre o casal e a gravadora EMI America para a gravação de discos em espanhol. O primeiro deles, Baila Comigo, lançado no México há um mês, vendeu até agora 80 000 cópias, um número significativo num mercado semelhante ao brasileiro. E, para o final deste ano, os planos são ainda mais ambiciosos: Machat pretende gravar com Roberto e Rita um LP totalmente em Inglês, para concorrer no mercado americano "Eles são idolos naturais, tenho Lerteza que, em pouco tempo, podem conquistar entre os americanos um público pequeno mas entusiasmado", garante o empresário.
 
A perspectiva, contudo, não chega a impressionar Rita Lee, que evita programar sua vida a um prazo tão longo. Exatamente porque não é de seu feitio traçar estratégias ou guiar-se por elas, é a única entre as artistas de sucesso do país, ao lado de Caetano Veloso, a manter e deixar exposta uma chama de inquietação. Em 1981, quando o país ainda dançava hipnotizado ao som de Lança-Perfume, consumindo 700 000 cópias desse LP, lançou um disco difícil, Saúde, com propostas vanguardistas como a canção Atlântida, que a fez descer ao patamar das 400 000 cópias vendidas. Poderia ter repetido a fórmula bem-sucedida de 1980, mas náo teria possibilitado o surgimento, dois anos depois, de toda uma nova geração de seus filhos artísticos do grupo Blitz à cantora Neusinha Brizola. Acima de tudo, não teria mantido um país atento à sua próxima surpresa, pronto a compartilhar de sua alegria irresistível.



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